Sínteses & reflexões em prol das amazonidades como ideário de desenvolvimento

As SÍNTESES E REFLEXÕESsocializadas nesta nova iniciativa editorial foram elaboradas entre os segundos semestres de 2005 e 2009. Entendo que representam mais um avanço na ideologia para a adoção do Projeto ZFM [Zona Franca de Manaus], sobretudo, como um meio, e não tão-somente como um fim em si mesmo. Essa perspectiva está escudada com o subtítulo EM PROL DAS AMAZONIDADES COMO IDEÁRIO DE DESENVOLVIMENTO.

Qual é o mérito de socializar sínteses-reflexões? Posso adiantar dois: I) a consolidação da essência de grandes temas elaborados por autores especialistas; necessariamente, II) vertidos à temática de observação reduzida sociologicamente enquanto foco de investigação. A primeira síntese-reflexão trata de uma visão heterodoxa de política industrial, cuja categorização resultante adota como base para as proposições pertinentes a dimensão patrimonial das firmas num contexto neoschumpeteriano [de Joseph Alois Schumpeter, o homem que pensou, na primeira metade do século XX, a inovação capitalista como fenômeno econômico]. Tal dimensão é algo importantíssimo para a estratégia de gestão política do Projeto ZFM, admitindo a contextualização da economia política associada à ciência política. A segunda trata da evolução do aprendizado industrial e tecnológico de um país emergente [Coreia], cujo processo de aproximação junto à fronteira tecnológica se dá pelo processo de cathing uptransitando da imitação para a inovação. Neste caso específico, é importante registrar que essa transformação se deu em período histórico quase equivalente ao do Projeto ZFM, que continua carente de atração de investimentos, enquanto que empresas coreanas desembarcam em Manaus. A terceira trata da conquista da fronteira tecnológica pelo país mais poderoso do planeta Terra [Estados Unidos], a qual foi construída com a importação de tecnologia estrangeira, mas transformada com a busca científico-tecnológica associada ao empreendedorismo vis-à-visa noção estratégica de defesa nacional. E, finalmente, a quarta trata das considerações entre ciência básica e inovação tecnológica também naquele país mais poderoso, cujo paradigma pós-guerra do modelo linear cede lugar a uma concepção mais dinâmico-sistêmica. Essa nova concepção trata as perspectivas do desenvolvimento sustentável com caráter estratégico. Todas elas colocadas de frente com a natureza do modelo de crescimento econômico de Manaus e com as possibilidades de desenvolvimento da Amazônia, enquanto maior capital natural deste planeta. Alinhados, portanto, estão os dois atributos meritórios para a socialização das sínteses-reflexões.

Por sua vez, a reflexão inaugural define a perspectiva visionária. Normativa. De longo prazo, portanto, base de uma política de Estado. As duas reflexões finais representam preocupações adicionais que podem obstaculizar a realização de um futuro desejado que expresse maior liberdade política e maior independência econômica para os 25 milhões de amazônidas do chão amazônico. Finalmente, o Apêndice revela a minha veia erudita sendo tentada pelo cientificismo, como que sinalizando para a necessidade de avanços teóricos futuros.

Todas foram socializadas imediatamente depois de elaboradas no sítio www.argo.com.br/antoniojosebotelho.

É bom ressaltar que o paradigma que escuda a ideologia defendida por mim tem como pressupostos vinculantes, o sistema capitalista e suas derivações, os quais seguem albergados pelos Estados nacionais e seus respectivos contratos sociais. Vale dizer que a organização social deste planeta Terra, neste início do terceiro milênio da era Cristã, continua, com vigor redobrado, estruturado na acumulação de capital e na apropriação do conhecimento, individual e coletivamente categorizando a hegemonia do jogo político. Assim, nesse jogo, prevalece a propriedade de firmas e tecnologias, isto é, quem não as possui tornam-se cidadãos de segunda categoria política.

Esta nova iniciativa editorial representa um novo avanço ao conjunto do meu esforço intelectual, que em 2010 estará fazendo duas décadas de estudo nessa temática, iniciado em 1991 com a publicação do primeiro artigo no jornal A Críticaintitulado Crescimento “versus” Desenvolvimento. A consolidação de uma série de artigos convergentes se deu em 1996 com a publicação da primeira edição do Redesenhando o Projeto ZFM: um estado de alerta!Em 2001, veio a dissertação de mestrado transformada na brochura de mesmo nome: Projeto ZFM: vetor de interiorização ampliado!Em 2003, o livro digital pequenas lascas: reflexões junto ao modelo mental do projeto zfm. Em seguida, em 2004, uma nova brochura: Trajetória Tecnológica Alternativa: o acaso amazônico [um enfoque a partir do Projeto ZFM]. Finalmente, a segunda edição do Redesenhando o Projeto ZFM: um estado de alerta! [uma década depois]em 2006. Com um necessário e providencial arranjo metodológico, esse conjunto de contribuições ao capital social de Manaus poderia ser defendido como tese em qualquer campus do planeta, especialmente numa escola de Ciências Sociais.

O avanço está positivamente representado pelo desenvolvimento de dois novos conceitos: I) processo de growing up, em contraponto ao de cathing up; e II) capacitação tecnológica tardia, em complemento à lógica da industrialização tardia. Junto com os conceitos de economia de enclave industrial moderno e amazonidades, constituem as fundações da ideologia que defendo. Os dois novos conceitos emergiram no bojo das sínteses-reflexões e estão definidas nas notas de rodapé n.os38, vinculada à síntese-reflexão Raciocinando por fora do pensamento único: evidências subjetivas de uma esquizofrenia histórica, e 117, por sua vez vinculada à síntese-reflexão Tio Sam pelo Tio Sam: a fronteira tecnológica conquistada [uma busca por simetrias históricas em prol das amazonidades], respectivamente abaixo reproduzidas:

Fica, aqui, cunhada a expressão growing up, entendida como o processo de criação de uma trajetória tecnológica alternativa a partir do acaso amazônico [amazonidades = transformação de insumos e saberes da floresta em produtos e serviços realizados no marcado], estruturada no desenvolvimento sustentável, enquanto perspectiva de um novo marco civilizatório. Portanto, como contraponto ao processo de catching upresultante do determinismo econômico que a fronteira tecnológica determina aos países em desen­volvimento.

Lógica da adoção do Projeto ZFM como um meio e não como um fim em si mesmo, que este autor tem adotado ao longo de reflexões sobre a natureza política e filosófica desse “modelo de desenvolvimento”, marcadamente excludente, porque indutora do egocentrismo manauara [Manaus-cêntrica], e dependente, porque pressupõe o crescimento econômico com base da capacitação tecnológica tardia decorrente e ao mesmo tempo associada da necessidade permanente da atração de investimentos. E aqui segue a cunhagem de um novo conceito [que se junta ao de amazonidades, economia de enclave industrial e processo de growing up– contraponto ao processo de catching up– utilizados em reflexões passadas] fruto da combinação dessas reflexões: Capacitação tecnológica tardiarepresenta o esforço e resultado de aprendizado empreendido por local emergente e periférico em processo de “catching up” quando o conjunto de firmas que promove o crescimento econômico desse local é fundamentalmente de origem estrangeira e nacional. É o caso de Manaus cujo Polo Industrial é constituído por multinacionais e empresas [nacionais] de capital não-local. Portanto, é a construção por parte do seu capital social [somatório de capital humano dos indivíduos e capital intelectual das instituições] de uma oferta tecnológica a uma demanda tecnológica [certamente sempre superior em função da fronteira tecnológica de alhures] que deriva de uma estrutura de produção resultante de políticas industriais e tecnológicas exógenas ao local periférico e emergente. Assim, nesse processo duplamente tardio [industrial e tecnológico] perde-se ou retarda-se a oportunidade da construção de um modelo de desenvolvimento que liberte politicamente e que promova a independência econômica desse local periférico e emergente [processo de growing up].

Na verdade, o termo capacitação tecnológica tardia já vinha sendo utilizado por mim, como, por exemplo, na reflexão intitulada Inovação como fulcro de competitividade [disponível no meu site acima informado], não reproduzida nesta iniciativa editorial. Faltava-lhe, contudo, uma definição. Nesta oportunidade, resta ratificada.

É importante observar a inter-relação existente entre os conceitos, como argamassa da ideologia defendida. A interdependência deles constitui os componentes da visão de futuro desejado. Por um lado, economia de enclave industrial condiciona sinergicamente de forma negativa a capacitação tecnológica tardia. Por outro lado, growing upé o campo de ação das amazonidades, libertando-as sinergicamente de forma positiva. É claro que a capacitação tecnológica tardia, derivada da economia de enclave industrial moderna, pode e deve ser tomada como suporte, como externalidade positiva, devendo, contudo, migrar predominan­temente para o processo de growing up vertido às amazonidades. A idealização dos quatro conceitos só foi possível observando a realidade industrial e tecnológica objetiva de Manaus em confronto com as evoluções histórias e reflexões teóricas dos Estados Unidos e Coreia, obtidas com as sínteses, cujos temas, como dito, são correlatos à emergência do Sistema Manaus de Inovação [SMI], de um processo de desenvolvimento industrial e tecnológico autossustentado e à lógica da sustenta­bilidade [desenvolvimento sustentável].

Assim, estas SÍNTESES E REFLEXÕES jogam com esses conceitos EM PROL DAS AMAZONIDADES COMO IDEÁRIO DE DESENVOLVIMENTO.

Repita-se, permanentemente, o mantra exposto na entrada deste livro, em­quanto perdurar o sistema capitalista e a necessidade de independência econômica e liberdade política para os 25 milhões de amazônidas!

Antônio José Botelho
Outubro de 2009

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